Diagnóstico de uma farsa
Morte do presidente Tancredo Neves gerou controvérsias que são objeto de pesquisa médica
Carlos Herculano Lopes – EM Cultura
Editora Cultura/Divulgação
O que determinou a morte do presidente Tancredo Neves, ocorrida naquele fatídico 21 de abril de 1985, no Incor, em São Paulo? Primeiro civil a ser eleito para a Presidência da República depois de 21 anos de ditadura militar, o político mineiro havia sido internado às pressas, em 14 de março, dois dias antes de tomar posse, “para tratar de antigas dores abdominais”. De acordo com o historiador e pesquisador médico Luis Mir, especialista em atendimento médico de trauma e professor visitante da Faculdade de Medicina da USP, que acaba de lançar o livro O caso Tancredo Neves, o paciente, não existiu um único fator determinante para a morte, mas uma série desastrada de equívocos. Para ele, o presidente poderia ter sido salvo se erros primários, protagonizados pela equipe que o atendeu no Hospital de Base, em Brasília, não tivessem ocorrido. A “síndrome Tancredo Neves”, para Luis Mir, nunca mais abandonou os médicos que o atenderam. “Explicaram, explicam, explicarão o resto de suas vidas o que fizeram, por que fizeram, o que não fizeram. Mas há, em última análise, um consenso médico sobre o caso: o paciente matou o presidente da República, e o presidente da República matou o paciente”. Em entrevista ao Estado de Minas, o escritor dá detalhes de sua pesquisa sobre o caso médico que abalou a República.
O que levou o senhor a publicar o livro 25 anos depois da morte de Tancredo Neves?
Não aceitar, dentro dos meus limites, uma farsa. E tentar resgatar sua dignidade como paciente. As lendas – atentado, envenenamento, complô médico para impedir a sua posse – são perversas, inaceitáveis. Os fatos tinham que ser reconstituídos para apontar os responsáveis pelos diagnósticos equivocados, procedimentos inadequados, resultados catastróficos para ele. Ele era um paciente idoso, mas saudável, portador de um tumor no intestino delgado facilmente operável, sem metástase, uma cirurgia simples se tivesse sido bem diagnosticado, bem operado. Poderiam ter esfriado a bacteremia (processo infeccioso), estabilizado o quadro, ele poderia ter tomado posse, ter sido operado eletivamente e ter exercido integralmente seu mandato. Segundo o seu histórico clínico, era uma pessoa saudável. O diagnóstico equivocado de apendicite supurada é que determinou a primeira operação desastrada. O que encontraram? Um tumor maligno. Era primário, não tinha abscesso, não contaminava a parede abdominal (não infiltrava, não era agressivo), não tinha metástase, não estava em uma fase de proliferação (crescimento) agressivo. Não representava risco de morte, não exigia uma operação de urgência, deveria ter ido retirado numa cirurgia eletiva. E mais, era completamente ressecável, estava pediculado, pendurado, facilmente operável. Maligno não quer dizer mortal, tumor não quer dizer que não seja operável, tratável, controlável. O tumor não representava nenhum risco imediato de vida.
O que mais o incomodou, a ponto de investigar toda essa a história?
Objetivamente, ele não ter tomado posse por uma série de equívocos diagnósticos e cirúrgicos. Mas quero deixar claro que não é a minha versão. Tudo, rigorosamente tudo, publicado no livro, está lastreado nos prontuários do Hospital de Base de Brasília e do Incor. O diagnóstico primário de uma apendicite aguda com abscesso e suspeita de peritonite feito no exame de ultrassom no Centro Radiológico Sul era totalmente equivocado. O que se via na ecografia era um tumor, com necrose, gás e líquido (suspeita de infecção). Era um caso para uma cirurgia programada. Não havia risco de morte, não havia urgência. Deveriam ter entrado a partir do dia 13 de março com uma antibioticoterapia para combater a bacteremia, identificar o foco infeccioso e prepará-lo bem para a cirurgia. Operado no início da madrugada de 15 de março, quando abriram o abdômen do presidente o que encontraram foi um tumor intestinal – leiomiossarcoma – pediculado, pendurado no intestino delgado, no íleo terminal. Não havia peritonite, não havia líquidos na cavidade abdominal, não havia hemorragia, não havia obstrução. E começa o desastre. Em vez de ser retirado o tumor com uma ressecção segmentar, como já preconizava a literatura e a técnica mais adequada à época, o cirurgião Francisco Pinheiro Rocha opta por uma ressecção em cunha, em V. O que provocou que o paciente babasse (sangrasse gota a gota) desde o primeiro momento. O que determinou a morte do presidente Tancredo Neves: enterorragia (hemorragia maciça) decorrente de um erro técnico na sutura da primeira cirurgia – não era um divertículo, era um leiomiossarcoma. Repito, não se poderia fazer a ressecção em cunha. É um erro técnico grave. Ele sangrou desde o primeiro momento e isso explica por que o intestino não voltou a funcionar. Determinou as complicações que o levariam à morte.
Quais foram, a seu ver, os erros básicos cometidos pela equipe do Hospital de Base, em Brasília?
Mal diagnosticado no exame de ultrassom no dia 13 de março de 1985, mal operado no início da madrugada do dia 15 de março, na extubação antecipada da primeira operação ele teve um edema agudo de pulmão, tendo sido salvo em manobras heroicas por cerca de três horas. Ele poderia ter morrido na mesa de cirurgia nessa primeira operação. Não deveria ter sido extubado da forma como foi. Era o início de um pós-operatório desastroso, as complicações pós-operatórias começam desde a primeira intervenção e nunca mais cessaram. Mais um diagnóstico equivocado – íleo adinâmico (também havia a suspeita de íleo paralítico) – e reoperam o presidente menos de cinco dias depois da primeira intervenção. Com uma cirurgia desnecessária, operado numa sala do pronto-socorro contaminada, aceleram o sangramento da anastomose da primeira intervenção. E no dia 23 de março ele tem uma gravíssima crise respiratória e chega novamente às portas da morte. Provocada pela hipovolemia, perda de líquidos, por hemorragia oculta. E finalmente, na madrugada de 24 de março para o dia 25, a hemorragia se torna persistente e acaba num choque hemorrágico na tarde do dia 25, poucas horas depois da famosa foto. Quando foi levado para a foto, já tinha sangrado muito. Ele deveria ter sido reoperado imediatamente para suturar o vaso sangrante, teria se salvado. Foi levado em uma cadeira de rodas para a famosa foto, sangrando.
Tancredo entrou em fase terminal em 12 de abril, conforme está no livro. Por que mantê-lo vivo até o dia 25 de abril?
Essa decisão é de integral responsabilidade de Henrique Walter Pinotti. Algumas de suas decisões foram tão delirantes a partir do dia 9 de abril de 1985, que alguns médicos que acompanhavam o presidente no Incor comentavam que ele tinha surtado. Na quarta cirurgia, a do dia 12 de abril, para remover a parede abdominal necrosada e a colocação de uma tela de Marlex, eles sabiam que o presidente era um paciente terminal. E a partir do dia 16 totalmente dependente de drogas vasoativas para manter o coração funcionando, o pulmão de choque já provocara disfunção múltipla de órgãos.
Quando ele foi transferido para São Paulo, as esperanças de salvá-lo já haviam acabado?
Tancredo Neves foi transferido para São Paulo na manhã de 26 de março de 1985 como paciente politransfundido e o quadro não pôde ser revertido. Ele chegou tarde. Recursos esgotados. A partir daí, entrou nos cuidados paliativos, uma tarefa dolorosa para todos os envolvidos. Tudo o que ocorreu clínica e cirurgicamente no Instituto do Coração para o paciente Tancredo Neves não alterou um centésimo seu estado crítico. Morreu cirúrgica e hemorragicamente em Brasília e foi enterrado clinicamente em São Paulo. A excelência médica à sua disposição no Hospital das Clínicas conseguiu o impossível: mantê-lo vivo a partir do dia 9 de abril mediante drogas e aparelhos, que só seriam desligados no dia 21 de abril. Francisco Pinheiro Rocha vetou o embarque do presidente eleito em um jatinho que o levaria na noite do dia 14 de março para São Paulo. Alegou que a cirurgia deveria ser feita no prazo máximo de uma hora ou o presidente morreria. E que ele não acompanharia o presidente no voo. A família perplexa, e alguns colegas dele achando que ele estava se apressando em demasia. Tinha que se preparar melhor a cirurgia. Levaram três horas para iniciar a tumultuada operação no Hospital de Base. Tudo de grave ocorreu em Brasília. São Paulo foi apenas o fim da jornada, que se sabia qual era desde a hemorragia maciça que teve.
Como a família do presidente recebeu o livro? O senhor chegou a ter algum contato com os familiares de Tancredo?
Tive apenas três contatos com os familiares do presidente Tancredo Neves por meio de seu filho, Tancredo Augusto Tolentino Neves, e de sua neta, Andréa Neves Cunha, por e-mails. O primeiro foi para cientificá-los de que iria publicar essa história clínica e cirúrgica estritamente dentro do campo médico. A segunda, que se autorizassem a publicação dos prontuários (eu já os tinha estudado), resgataríamos a dignidade desse paciente. Incluído o laudo da necropsia, que atestava a má técnica cirúrgica utilizada na primeira intervenção. E que seria a primeira vez na história deste país (desta vez realmente a primeira vez) que se publicaria uma documentação médica dessa importância de um chefe de Estado brasileiro. Autorizaram a publicação de qualquer documento médico que pudesse contribuir para a minha investigação. Não posso me furtar a reconhecer que não interferiram, não opinaram sobre o resultado final da investigação, não me pediram sequer a leitura prévia do original, me disseram que não proporiam a mudança de uma única vírgula em todo o trabalho, por ser um livro médico.
Qual foi a contribuição para a história que o senhor acha ter dado ao publicar o livro?
Resgatar a dignidade do presidente Tancredo Neves como paciente. A partir do momento em que foi internado, na noite do dia 14 de março de 1985, ele foi um paciente disciplinado, atento e solícito a todas as prescrições e recomendações médicas. E quando se acusa ele de ter protelado a cirurgia, não é verdade. O que queria era apenas tomar posse, tinha se preparado a vida inteira para aquelas horas. E disse aos médicos que desceria a rampa do Planalto correndo para se internar logo depois dela. Se não se comete o erro de diangóstico primário na ecografia do dia 13 de março e se se faz uma rotina adequada para prepará-lo para uma cirurgia, poderia ter tomado posse. Esse foi um dano para a reconstrução democrática que nunca mais foi revertido.





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