Reinaldo Bulgarelli: A Diversidade Faz a Diferença (ESTILO & GESTÃO RH – Catho online)

Entrevista

Letícia Fagundes

Um educador. É assim que Reinaldo Bulgarelli, 46 anos, se define. Trabalhando desde os 16 com Direitos Humanos, ele já foi membro da Unicef, da Secretaria do Menor no Estado de São Paulo e um dos fundadores do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua.

Há 10 anos, entrou no mundo empresarial. Foi convidado para trabalhar na Fundação BankBoston e, de lá para cá, transformou-se em consultor e assessor de grandes organizações nos temas relacionados a sustentabilidade e responsabilidade social e corporativa. Entre as empresas que contaram com sua consultoria estão HSBC, Santander, Bradesco, Itaú, Wal-Mart, Alcoa e Philips, entre outras.

No universo corporativo, Bulgarelli vem batalhando pela discussão e consolidação de um tema que ainda engatinha no Brasil: a valorização da diversidade. O assunto virou livro, recém-lançado nas livrarias do País: “Diversos Somos Todos” (Editora Cultura), que mostra a importância não apenas de respeitar as diferenças, mas de valorizá-las, de enxergar a qualidade na diferença dentro e fora das corporações.

A entrevista exclusiva que o consultor deu ao Jornal Estilo & Gestão RH você confere abaixo:

Estilo & Gestão RH Catho Online: O que é valorização da diversidade? Devemos tratar todos de maneira igual ou, na verdade, respeitar as diferenças?
Bulgarelli: O conceito está em construção, sobretudo para a nossa realidade brasileira. Vai bem contra o que está no dicionário, porque é o conjunto de diferenças e semelhanças, e esse conjunto precisa ser valorizado. Diversidade é só isso. É uma característica da vida, e só constatar a diversidade não basta. Por isso que eu uso sempre o termo valorização da diversidade, para mostrar a necessidade de a gente agir. Se é valor, tem de pesar na hora da tomada de decisões.

Estilo & Gestão RH Catho Online: De que forma a diferença faz diferença em uma equipe? Por exemplo, pensando em um departamento onde todos são muito iguais. O que essa equipe tem a perder?
Bulgarelli: Bom, é importante frisar que só por meio de gestão que a diversidade adiciona valor. Então, por exemplo: você tem uma equipe diversa, com pessoas com diferentes histórias e perspectivas. Potencialmente, você pode adicionar valor, mas sem a gestão adequada, gestão para a diversidade, não há solução. Porque é possível, sim, enriquecer o olhar e ampliar as perspectivas, mas repito: sem gestão não há solução. Por meio de gestão você permite que as diferenças se expressem. Nas nossas equipes faltam vários segmentos da população, e essas mesmas equipes, por isso, estão em situação de desvantagem e vulnerabilidade. A gente impõe um padrão dominante. A gente só aceita um modelo, uma forma de se comunicar, um jeito de entender, de perceber a realidade. Mas por meio da gestão você consegue fazer com que semelhanças e diferenças enriqueçam uma equipe.

Estilo & Gestão RH Catho Online: Ainda muita gente pensa que ser diferente pode causar atritos para as equipes?
Bulgarelli: Muita gente. A maioria ainda pensa que é muito mais fácil fazer a gestão de uma equipe totalmente igual, ter clientes totalmente iguais, fornecedores totalmente iguais. Mas isso implica em tratá-los de maneira igual e, portanto, implica em descaracterizá-los. E também há o outro lado dessa questão: as próprias pessoas também fazem um movimento de se assemelhar, para poderem ser aceitas. Elas acham que não têm de expressar suas singularidades porque assim fica mais fácil sobreviver.

Estilo & Gestão RH Catho Online: Algumas empresas procuram atrair pessoas diferentes por obrigação ou por ser politicamente correto. Nesse caso, acaba não sendo por gestão. Pode dar errado?
Bulgarelli: Isso acontece mesmo, mas eu não entro no julgamento dos motivos pelos quais isso acontece. Quando uma empresa solicita uma consultoria nessa área, a gente percebe que os motivos, às vezes, são mesmo bobinhos ou imposições de fora, do ponto de vista legal, modismos, etc.. Mas é aí que a gente deve acreditar nos processos e em gestão. Às vezes, o motivo inicial é esse mesmo. Mas a diversidade é algo tão rico e tão desafiador que é muito difícil você manter uma coisa só porque é politicamente correto. Na medida em que você opta por isso, as pessoas se mexem, começam a se expressar, geram conflitos. E aí sai da superficialidade inicial.

Estilo & Gestão RH Catho Online: Ou seja, o processo vai mostrar que o conflito é enriquecedor?
Bulgarelli: É, as pessoas começam a se mexer. Eu sou muito otimista em relação a isso. A diferença começa a fazer a diferença. As mulheres falam mais sobre o que é ser mulher dentro de uma organização, os negros começam a dizer que são negros, os gays aparecem, as pessoas com deficiência que foram contratadas pela lei de cotas apontam que não basta estar lá, e sim ter acessibilidade. Isso tudo faz a roda girar. Claro que em empresas muito autoritárias as pessoas até entram diferentes, mas acabam saindo todas iguais. Ou seja, não há o efeito desejado, pois não tem gestão, não houve valor.

Estilo & Gestão RH Catho Online: As empresas, mundiais e brasileiras, já se deram conta disso?
Bulgarelli: Estão se dando. Depois de 10 anos trabalhando com esse tema, eu vejo que a gente nunca teve tanta gente falando sobre diversidade. O momento é propício para colocar o dedo na ferida. Nós precisamos aprender a realizar essa gestão da diversidade de forma que se aproveite essa riqueza, e o Brasil é maravilhoso para isso. Não há país no mundo onde a gente possa ter tanta diversidade! O Canadá, por exemplo, tem de importar diversidade, eles estão de braços abertos, estão sempre recrutando gente. Aqui a gente tem, mas despreza, não dá valor, e assim mantém padrões elitistas. Mas eu estou otimista, sim. Eu acredito que a gente tem não só condições de sair do atraso que há nessa área, mas também pode dar exemplo ao mundo todo.

Estilo & Gestão RH Catho Online: Deixar a teoria para trás e colocar tudo em prática?
Bulgarelli: É. Está na hora de sair do mito de que aqui é tudo lindo, bacana, que não existe racismo, etc. e colocar em prática. Na medida em que a gente assume os conflitos e que nós temos problemas de discriminação sim, isso ajuda a dar um salto.

Estilo & Gestão RH Catho Online: E essa discriminação é geral, não? O problema não é apenas em relação à mulher ou ao negro. É um problema em relação ao diferente mesmo….
Bulgarelli: 50% da população brasileira se autodeclara negra. E 52% da população já é composta por mulheres. Como eu posso fazer uma gestão dos meus negócios e não lidar com esses dados? Agora, a gente muitas vezes não aceita nem um homem que usa brinco, alguém que tem tatuagem, tem dificuldade de conversar com alguém que tem sotaque diferente! Nós estabelecemos um padrão cultural que atrapalha, não nos deixa ver valor. Eu não gosto de hierarquizar qual diferença é mais discriminada. Mas, no fundo, a gente ainda tem esse problema e a gente não vê qualidade na diferença de um modo geral.

Estilo & Gestão RH Catho Online: Sendo gestão, qual o papel do RH nesta questão?
Bulgarelli: O RH domina as técnicas, os procedimentos, os processos de gestão de pessoas em uma organização. Então, o departamento tem essa tarefa e pode influenciar nesse novo olhar, esse olhar mais atento para a diversidade, sobretudo percebendo que nesse tema há um vínculo importante com as finalidades da empresa, inclusive em relação à identidade da empresa. Diversidade tem a ver com público, com os produtos e serviços. E o tema tem ajudado muito o RH a dialogar melhor com todas as áreas da empresa.

Estilo & Gestão RH Catho Online: Você também fala muito sobre sustentabilidade e responsabilidade social, temas que também vêm crescendo dentro das corporações. Mas o que isso tem a ver com diversidade?
Bulgarelli: É impossível você ser uma empresa sustentável sem valorizar a diversidade. Por aspectos econômicos, porque você está segregando uma parte da população que deixa de consumir, deixa de ter condições de participar dos seus processos de seleção, que é barrada. Isso gera um nível de pobreza no País. E também porque a sustentabilidade está impondo uma agenda de renovação, de repensar o jeito de fazer negócio. Aí a diversidade é fundamental, porque você vai trazer para dentro da organização os olhares necessários para um momento como este, de mudanças muito rápidas, de um público consumidor cada vez mais atento, interessado nas mudanças. Tudo caminha nesta direção de tornar o planeta mais sustentável, até porque a gente não tem muita saída…

Estilo & Gestão RH Catho Online: Você atualmente está inserido no meio empresarial, mas sua carreira sempre foi focada em Direitos Humanos, certo?
Bulgarelli: Eu sou um educador e estou agora no meio empresarial, mas eu venho de um movimento de Direitos Humanos. É interessante perceber que hoje o mundo empresarial está mais atento aos temas de Direitos Humanos e se dando conta de que isso não é estranho aos negócios, não é uma agenda a mais. Faz parte da atividade empresarial pensar em questões ligadas a Direitos Humanos. Eu trabalhei a maior parte da minha vida com direito da criança e do adolescente, com população em situação de exclusão. Ser convidado por empresas para trazer esse olhar é muito interessante e mostra que as organizações estão mudando. Não sou eu que estou mudando minha carreira e indo para o meio empresarial, são as empresas que estão se dando conta disso, de toda a cadeia de negócios.

Estilo & Gestão RH Catho Online: Para terminar, Reinaldo, você quer deixar algum recado?
Bulgarelli: Esse tema parece ser difícil e, de fato, é um pouco. Mas ele é muito prazeroso. E não é para colocar o dedo na cara de ninguém, como se alguém não fosse preconceituoso. Eu sou, todo mundo é – e a gente tem mesmo muita dificuldade com isso. Por isso, devemos nos policiar e prestar atenção na diferença. Lidar com esse tema é um aprendizado constante.

Fonte:
http://www.catho.com.br/estilorh/index.phtml?secao=157

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