Verde que te quero verde (Portal do Voluntário)

Entrevista da Semana

No mês de maio, a Floresta Amazônica perdeu uma área do tamanho da cidade do Rio de Janeiro. A informação é do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que acaba de divulgar os dados do sistema Deter (Detecção do Desmatamento em Tempo Real), sobre o desmatamento da Amazônia em maio. Foram desmatados 1.096 km² da floresta mapeados como corte raso ou degradação progressiva durante o mês, período em que 46% da Amazônia Legal esteve coberta por nuvens.
A maior floresta tropical do mundo, que deveria ser reconhecida apenas pela sua beleza e diversidade de flora e fauna, infelizmente aparece cada vez mais na mídia por causa do desmatamento. O Greenpeace, organização focada em ações ambientais, entra na luta para conter a devastação da Floresta e conta com o trabalho voluntário para atingir seus objetivos. São campanhas a favor da Amazônia, incentivando Leis e atitudes governamentais, e combate às Leis e práticas que incentivam o desmatamento. A mais nova luta da organização é contra um Projeto de Lei, conhecido como “Floresta Zero”. Entenda as propostas deste Projeta e conheça a Campanha Meia Amazônia Não! Participe, essa luta é de todos os brasileiros!
*A foto de capa é de Rodrigo Baleia

Portal do Voluntário – Como se tornar voluntário do Greenpeace?

Marcio Astrini – O Greenpeace mantém grupos de voluntários em Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Brasília e Manaus. Duas vezes por ano, em média, nós realizamos um processo seletivo dos voluntários. Os interessados podem se inscrever pelo site da organização www.greenpeace.org.br. Os critérios fundamentais para a seleção são: perfil do candidadato adequado com a missão proposta pela organização, disponibilidade de horário para participar das reuniões e atividades estabelecidas no calendário anual do grupo, acessar emails com frequência e morar na cidade onde temos atualmente um dos sete grupos de voluntários. Mas o mais importante é que os Grupos Locais de Voluntários agregam pessoas que concordam com a missão, objetivos, valores e campanhas da organização no Brasil (ver no site política de voluntários do Greenpeace Brasil). Eles atuam tanto em eventos públicos quanto no trabalho de escritório, auxiliando no desenvolvimento da organização. Atualmente contamos com o trabalho de 200 voluntários.

Portal do Voluntário – Na sua opinião, o trabalho voluntário pode ajudar na melhoria do meio ambiente?

Marcio Astrini – Com certeza o trabalho voluntário faz toda a diferença para a melhoria do meio ambiente! Os voluntários do Greenpeace são pessoas que têm motivação especial para defender o meio ambiente e a paz. Têm importante papel em divulgar a missão e as campanhas do Greenpeace Brasil. Comprometem-se também com os princípios e valores da organização, oferecendo seu tempo e diferentes habilidades para atuarem voluntariamente com participação ativa e regular. O voluntariado é uma forma importante para os ativistas ambientais participarem das campanhas do Greenpeace.

Portal do Voluntário – Um dos principais problemas da Amazônia é o desmatamento. Quais os índices atuais de desmatamento na região e suas principais causas?

Marcio Astrini – Hoje, mais de 700 mil km² da Amazônia já foram destruídos, o que equivale a 17% do tamanho original da floresta. A divulgação do último índice de desmatamento, em 2007, registrou 11.224 km2 de área desmatada. Em 2008, esse cálculo deve ser divulgado em agosto e, infelizmente, o índice deve ser maior que no ano passado. O Ministro do Meio Ambiente já falou em 14 a 15 mil km² nesta medição. A conversão de terras em pastagens e culturas agrícolas e a exploração ilegal e predatória de madeira estão entre as principais causas de desmatamento na região.

Portal do Voluntário – O que fazer para proteger a população local e desenvolver a região amazônica?

Marcio Astrini – As soluções para o desenvolvimento sustentável da Amazônia são muito complexas. Não existe uma fórmula mágica que, se aplicada, resolverá tudo. Porém, caso algumas medidas básicas não sejam tomadas, os problemas não terão solução. Uma delas é o Governo estabelecer um plano de desenvolvimento para as diversas regiões da Amazônia, de acordo com seu potencial de produção e necessidade de preservação, sempre tendo como prioridade a manutenção da floresta viva. É necessário também fazer valer a Lei na região, aumentando a fiscalização e punindo severamente quem comete crimes ambientais e sociais. Além disso, é fundamental investir em projetos e mercados que explorem de forma sustentável os recursos da floresta, gerando tecnologia para esta produção e dando vazão à produção de pequenos agricultores. Aproximadamente 22 milhões de pessoas vivem na Amazônia e o desmatamento não trouxe qualidade de vida a esta gente. Entre 2003 e 2006, 85% dos casos de trabalho escravo registrados no país encontravam-se nas áreas desmatadas da Amazônia e o Índice de Desenvolvimento Humano daquela região está abaixo da média nacional.

Portal do Voluntário – Quais as principais ações do Greenpeace na luta contra a destruição da Floresta Amazônica?

Marcio Astrini – O Greenpeace mantém um escritório em Manaus, de onde é coordenada a campanha da Amazônia. Lá, contamos com infra-estrutura que nos permite acompanhar, investigar e denunciar os problemas da Amazônia com mais propriedade. Desenvolvemos campanhas que atuam nos principais focos promotores do desmatamento, como madeira ilegal e soja, além de um programa de criação de áreas protegidas, entre outros. Também atuamos no campo político, incentivando Leis e atitudes governamentais que tenham como objetivo combater o desmatamento, e combatemos as Leis e práticas que o incentivam. Além disso, elaboramos relatórios, como a que denunciou o esquema formado entre madeireiros da região e setores do INCRA, para a exploração de madeira de forma ilegal, e a análise do Plano do Governo Federal de combate ao desmatamento.

Em 2007, junto com outras ONG’s, o Greenpeace publicou um estudo chamado de Desmatamento Zero, onde não apenas propõe, mas também indica o caminho de como o Brasil pode acabar com o desmatamento na Amazônia até 2015.

Portal do Voluntário – No que consiste o Projeto de Lei 6424/2005?

Marcio Astrini – Este projeto, também conhecido como “Floresta Zero”, teve início no Senado e foi muito modificado pela bancada ruralista na Câmara dos Deputados. Caso fosse aprovado da forma como está hoje, incentivaria o desmatamento na Amazônia.

Suas principais propostas são:

* Ampliação do tamanho da área que pode ser desmatada nas propriedades rurais. Hoje é permitido desmatar 20% da área total das propriedades, excetuando-se as Áreas de Proteção Permanente (APP). O restante da propriedade (80%) deve ser preservada. Isto é o que chamamos de Reserva Legal (RL). O PL, além de propor aumento de 50% da área que pode ser desmatada, propõe que as APP’s sejam incluídas neste cálculo, o que, em alguns casos, diminuiria ainda mais o percentual de floresta a ser preservada.
* Anistiar um grande número de desmatadores que, entre 1996 e 2006, cometeram crimes ambientais como desmatar além do limite permitido, o que também tornaria inválida várias multas e sentenças já aplicadas a essas pessoas.
* Permitir que a compensação por desmatamento possa ser feita em local distante da área desmatada. Assim, uma pessoa que desmatar no Acre, pode compensar no RS, ou vice versa. Isso poderia condenar várias áreas do país a ficarem “livres” de florestas. Daí o nome “Floresta Zero”.
* Caso a pessoa que desmatou além do permitido queira compensar esse desmatamento dentro da mesma microbacia, ele ganharia o direito de realizar apenas 75% da compensação devida, isto é, teria um “abatimento” de 25% na sua dívida ambiental.
* Permitir que a recomposição da Reserva Legal (RL) possa ser feita com palmáceas, incluindo arbóreas como o Dendê. Países como a Indonésia, por exemplo, estão perdendo suas florestas porque elas estão sendo substituídas pela plantação destas outras espécies.

Portal do Voluntário – Quais seriam as consequências de sua aprovação para a Floresta e para o país?

Marcio Astrini – Péssimas! Seria uma sinalização de que na Amazônia, o crime do desmatamento compensa e uma demonstração de que nosso País está mais interessado na exploração descontrolada a qualquer custo da floresta do que em sua preservação e exploração sustentável. Teríamos também muitos prejuízos para o mercado brasileiro. Muitos países e outros grandes compradores de produtos brasileiros, principalmente na área agrícola, já exigem critérios mínimos que assegurem que seu dinheiro não está sendo investido em uma mercadoria que ajudou a desmatar a Amazônia. Esta já é uma preocupação real, que acontece com a soja brasileira. A simples existência de um PL como este já é um péssimo sinal e prejudica os negócios do Brasil no mercado exterior.

Além disso, a redução das áreas de florestas afetaria o regime de chuva na Amazônia, um dos maiores responsáveis pelo abastecimento de nossas hidrelétricas e dos reservatórios de água das grandes cidades. As chuvas que se formam na Amazônia também criam as condições climáticas vantajosas que faz do Brasil um dos maiores produtores agrícolas do mundo. Cada vez que derrubamos uma árvore na Amazônia, perdemos um pouco dessa vantagem, podemos estar comprometendo nossa matriz energética e prejudicamos o desenvolvimento do país.

Portal do Voluntário – Qual a importância de recuperar as áreas desmatadas?

Marcio Astrini – Uma delas é garantir que o equilíbrio ecossistêmico, isto é, garantir que nascentes de rios, a flora e a fauna de determinado local não deixem de existir ou não percam sua função.

Portal do Voluntário – O que os cidadãos podem fazer para impedir esse Projeto e ajudar a combater o desmatamento?

Marcio Astrini – Pressionar seus deputados, enviando cartas, e-mails ou manifestando-se contra a aprovação deste projeto e em defesa da Amazônia, além de participar de campanhas e atividades que tenham a finalidade de preservar e desenvolver a região.

Portal do Voluntário – O que falta para o país adotar um programa nacional de combate ao desmatamento na Amazônia? Quais seriam os principais pontos do progarma?

Marcio Astrini – O País tem um plano de combate ao desmatamento, mas só teve 30% de suas propostas aplicadas. A aplicação da lei e o fortalecimento do papel do Estado na Amazônia são fundamentais, assim como um urgente mapeamento e regularização fundiária de suas áreas. O Brasil precisa ter um plano para a região, determinando os locais a serem explorados economicamente em programas de sustentabilidade, gerando renda, emprego e investindo em tecnologia e em pesquisas. Combater o desmatamento na Amazônia é possível, e isto foi provado com o plano “Desmatamento Zero”. Obviamente não é uma tarefa fácil, mas é possível. A Amazônia é um dos maiores patrimônios do planeta, e o Brasil deve encará-la desta forma, tendo-a como uma grande aliada de seu desenvolvimento.

Portal do Voluntário – O que é a campanha “Meia Amazônia não”, como e quem pode participar?

Marcio Astrini – É uma campanha que tenta impedir a aprovação do PL Floresta Zero. Todos podem participar, pelo site: meiaamazonianao.org.br

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